Dinâmica silenciosa
Paul Gauguin |
Poderíamos começar nossa conversa dizendo que Rousseau era um romântico por acreditar em um homem naturalmente bom e afirmar que Hobbes, esse sim, era um filósofo mais sagaz, mais atento ao que se passa na realidade da sociedade. O homem é uma peste e somente o Leviatã pode decretar a paz entre nós, desordeiros selvagens. Aqui podemos avançar e dizer que um protesto é perigoso porque quando o povo se reúne não existe hierarquia, não podemos prever o que vai acontecer, em outras palavras - vai dar merda. Nada mais correto que injetar civilização nessa massa, tarefa que terceirizamos chamando apoio policial.
Esse comportamento obedece uma lógica já simplificada pela filosofia de bolso: o Estado está aqui para nos tutelar. Até aqui a filosofia se prestou a executar um serviço braçal, tornando-se ferramenta para construir uma visão de mundo que originalmente não tem nada de filosófico, alias, é avessa ao exercício do pensamento, não sabe questionar e o pior: não sabe se questionar.
O que acontece quando o Estado se torna o tutor da sociedade? As pessoas se tornam irresponsáveis.
Quando acreditamos que somente o Estado é capaz de transformar a realidade bruta em uma coisa boa passamos a nos identificar com essa coisa ruim que o Estado ainda não colonizou, nos tornamos dependentes de uma coerção, de uma presença autoritária, para atuarmos como seres civilizados. Isso não é novidade, basta dar uma olhadinha na Bíblia pra notar que Deus só aparecia quando a esbornia estava instaurada. Eu sempre me perguntei se isso era uma coincidência, mas esse é o quadro de uma dinâmica que captura o indivíduo em uma teia que o transcende, invisível.
Quando os valores possuem esse caminho descendente, Estado - individuo, a concordância se torna o único caminho possível para a virtude enquanto que, se o indivíduo discordar, ele se torna automaticamente um defensor da barbárie.
Agora, torno a Rousseau para dizer que pensar um individuo além do social é uma coisa corajosa, pois isso quebra essa dinâmica de "concordância" que retira do individuo a responsabilidade pela sua realidade política. O argumento padrão contra Rousseau é o terror instaurado por Robespierre após a Revolução Francesa, que, segundo os tais filósofos, ocorreu por inspiração de suas ideias. Segundo os críticos de Rousseau, as maiores tragédias ocorrem quando o homem ingenuamente acredita em seu próprio potencial, ignorando o lado negro(natural) que habita nossa alma.
A tragédia é usada para justificar um Estado tutelar, menos revolucionário, menos ingênuo, mas a maior ingenuidade é acreditar que existe liberdade sem tragédias, livre de sofrimentos. Retirando o fardo do pecado original dos ombros do homem moderno, Rousseau abriu caminho para que o político abrigasse o individuo e suas escolhas, tornou o individuo responsável pelo político.
Esse orgulho de reclamar de político, ser refém do Estado, combinado com uma busca pelo santo cargo público é o retrato do indivíduo esmagado pelos valores médios, ignorante da pressão niveladora que o social exerce sobre sua existência. A complexidade de relações que tece nossa vida em sociedade não cabe no universo de representações que possuímos, logo, nos digere silenciosamente.
Cara... excelente!
ResponderExcluirTava pensando nos casos em q a polícia faz greve e em menos de 5 minutos a barbárie se instaura de forma contundente, e as pessoas tomam isso como prova de que é necessário que uma força aja verticalmente sobre a sociedade, e assim, sobre o indivíduo, para que se mantenha certo controle. Na verdade isso é a mais pura consequência desse tipo massacrante de controle, que não deixa espaço pro exercício da liberdade.
Aprendemos a viver sob a tutela do Estado... mas não foi tão fácil qto possa parecer. Rolou muito quebra-pau... rs
Mas a troco de quê? Do tolhimento da individualidade?
Estamos acostumados a acreditar que viver em sociedade é o mesmo que viver formatados, sufocados.
Parabéns, cara. E obrigado por conversar comigo mesmo à distância... rs
Vamo assistir o Tarja Branca!?